sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

XENOFOBIA, O MAL DO NOVO SÉCULO: EUROPA ENCERRADA


Falo deste tema com a propriedade de quem nasceu em Portugal e passou sua infância em Angola. Apesar de meus pais terem saído do meu país para contribuir com o desenvolvimento de uma ex-colônia, muitos portugueses como nós, foram hostilizados ao retornar a Portugal, refugiados da guerra. Acusavam-nos, equivocadamente, de não se importarem com seu país, preferindo trabalhar para o progresso de outro. Esqueciam-se que era um país livre, onde todos têm o direito de imigrar para o país de sua preferência, tentando melhor sorte, sem que isso deva significar deserção ou falta de patriotismo. Afinal, sabe-se hoje, o mundo é um país. Sinto-me, portanto, à vontade para julgar que parece bastante hipócrita a tenacidade com que a Europa procura hoje evitar a chegada de imigrantes africanos, quando não são outra coisa que o resíduo patético das suas corridas coloniais de vários séculos.
Esperará por acaso a Europa que depois de séculos a saquear a África, despojando-a da sua cultura, dos seus recursos materiais e humanos, de injetá-la com a sua febre perniciosa de consumo, vai poder encarar o novo milênio como uma espécie de fortaleza artilhada e compacta em cujo interior todos são felizes enquanto que, no exterior, a fome e o desespero se alastram?
No conto de Edgar Allan Poe “A máscara da morte vermelha”, simboliza-se a futilidade da intenção do príncipe de se fechar no seu palácio a dar festas até que a peste passe. A morte acabou por entrar.
A Europa é rica graças, essencialmente, a tudo o que levou da África.
Por acaso esperam que os africanos famintos fiquem padecendo da miséria dos seus latrocínios enquanto as sociedades européias desfrutam dos altos níveis de qualidade de vida?
Acreditam, que é tolerável que quem os roubou, matou e violou centenáriamente venha a pontificar-se e a dar-lhes lições sobre moral internacional e direitos humanos?
Não se lembram, ingleses, dos massacres do Kenya ou dos despojos na Rodésia?
Não se lembram, franceses, o quanto roubaram em Dakar e na Costa do Marfim?

Não se lembram, alemães, dos campos de concentração na Namíbia e dos crânios do povo guerreiro dizimado que ainda conservam no Museu de Medicina de Berlim?
Não se lembram, belgas, das vossas atrocidades no Congo?

Não se lembram, portugueses, das vossas escavações depredadoras em busca do ouro de Angola, das vossas caçadas de escravos em Moçambique?

Não foi a vossa cobiça e a vossa vaidade ridícula, europeus, que regou com tanto sangue de crianças inocentes os diamantes da Serra Leoa?

E agora dão-se ao luxo de repelir estas barcaças de desesperados, de encerrar e de deportar os fugitivos que chegam às suas costas marítimas, porque até dão mau aspecto às suas glamorosas praias mediterrâneas.

Se a Europa fosse coerente com as suas próprias políticas de direitos humanos, teriam que acolher com os braços abertos todos os africanos e
pedir-lhes perdão por todas as ofensas,
oferecendo-lhes repartir aquilo que levaram das suas terras.
E o mais curioso, é que estes embandeirados pela angústia não pedem o que lhes pertenceria por direito.
Apenas pedem as migalhas de uma esmola, vender bugigangas nas praças, entregar jornais ou lavar automóveis... E mesmo assim não os querem…
É um espetáculo demasiado doloroso, demasiado triste que no centro da vossa grande civilização se mostrem os rostos obscuros das vítimas que o tornaram possível.
A vossa cegueira é admirável, a vossa hipocrisia é criminosa, a vossa baixeza é formidável.
Meditem longamente sobre o que estão a fazer, europeus.
Vós, que fizeram história, seriam demasiadamente estúpidos se esquecessem o que aprenderam.
Todo o poder de Roma não impediu a sua queda às mãos dos bárbaros famintos da Germânia e do Tártaro.

Toda a majestade da Bretanha se baixou sem atenuantes perante as massas hindus lideradas por um homenzito de aparência insignificante, mas com um grande coração.

Despertem do vosso sonho torpe e da vossa fantasia narcótica.

O mundo ruge desesperado à vossa volta.

Quanto mais tempo pensam que poderão fingir não ouvir?

A Europa deseja permanecer encerrada enquanto que uma África saqueada se desangra como a América Latina... Como o Oriente de segunda...
Não se pode aceitar que tanta beleza nas artes tenha surgido de corações tão duros...
Seguramente a Europa abrirá o seu coração, as suas portas...
Seguramente aprenderemos algum dia a tratar todos os seres humanos como iguais, porque se assim não for, estaremos aceitando os distintos genocídios ocorridos ao longo da história como feitos normais...

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